História


Independência do Brasil
Pedro Américo de Figueiredo e Mello. Independência ou Morte, 1886-1888. Óleo sobre tela. São Paulo: Museu Paulista.


A INDEPENDÊNCIA DO BRASIL

Para entender como o processo histórico relativo à Independência do Brasil é compreendido na cultura histórica contemporânea brasileira deve-se considerar três fatores que estão intimamente relacionados: a invenção de uma tradição dos feriados nacionais e, portanto, em um mito de origem; a tradição popular de uma comunidade, como a presença de um passado encapsulado (inconsciente) na memória histórica dos brasileiros; e a cultura escolar. Esses estão relacionados à expressão de uma consciência histórica tradicional entre estes estudantes, professores e demais cidadãos neste país.

Pode-se afirmar, quanto à criação de tradições de feriado nacional e a constituição de uma tradição popular, que a Independência do Brasil, com os seus respectivos marcos históricos, (tais como o Grito da Independência; a memória do local onde se supõe que aconteceu o “grito” realizado por D. Pedro I e seus soldados, às margens do Ipiranga [referenciada inclusive na letra do Hino Nacional Brasileiro]; e as constantes comemorações ao dia 07 de setembro de 1822) permitiram a constituição de uma identidade nacional unificada entre os brasileiros.
Isso fica evidente quando se considera, no campo da cultura escolar, o modo como os autores dos livros didáticos de História abordam esse tema como uma verdade única pautada em uma interpretação de um processo inevitável e inquestionável: a constituição de um Império do Brasil independente de Portugal organizado em uma monarquia parlamentar pela dinastia portuguesa dos Bragança.

Associada a essa interpretação está o predomínio de imagens canônicas ligadas ao dia da Independência produzidas desde o século XIX, as quais ajudaram a sedimentar a ideia de libertação do povo brasileiro, no dia 7 de setembro de 1822. Um exemplo bem sucedido deste fenômeno está ligado à pintura a óleo Independência ou morte, de Pedro Américo, popularmente conhecida como O grito do Ipiranga, produzida em 1888, às vésperas da proclamação da república brasileira.

O sucesso e a popularização desta obra ficam patentes pela sua presença nos livros didáticos de História e pela sua divulgação na mídia que vai além da escola, tais como filmes e histórias em quadrinhos. A primeira produção relevante em relação ao cinema é o filme de 1972, “Independência ou Morte!”, dirigido por Carlos Coimbra e estrelado por Tarcísio Meira, em que D. Pedro I proclama a Independência do Brasil às margens do rio Ipiranga, em São Paulo, e depois é coroado primeiro imperador do país. (É possível ver essa imagem em http://www.youtube.com/watch?v=mheime48ibA&feature=related). Essa cena da Independência foi claramente inspirada no quadro de Pedro Américo, atestando, portanto, o fato de que a disseminação dessa imagem já se constituía como um elemento do imaginário da identidade nacional brasileira. É importante lembrar que este filme foi financiado pela pelo governo Médici, quando os representantes da Ditadura Militar brasileira (1964-1985) tentavam se apropriar do imaginário popular sobre a independência do povo brasileiro.



Cartaz do filme Independência ou Morte! Direção: Carlos Coimbra, 1972.O sucesso e a popularização desta obra ficam patentes pela sua presença nos livros didáticos de História e pela sua divulgação na mídia que vai além da escola, tais como filmes e histórias em quadrinhos. A primeira produção relevante em relação ao cinema é o filme de 1972, “Independência ou Morte!”, dirigido por Carlos Coimbra e estrelado por Tarcísio Meira, em que D. Pedro I proclama a Independência do Brasil às margens do rio Ipiranga, em São Paulo, e depois é coroado primeiro imperador do país. (É possível ver essa imagem em http://www.youtube.com/watch?v=mheime48ibA&feature=related). Essa cena da Independência foi claramente inspirada no quadro de Pedro Américo, atestando, portanto, o fato de que a disseminação dessa imagem já se constituía como um elemento do imaginário da identidade nacional brasileira. É importante lembrar que este filme foi financiado pela pelo governo Médici, quando os representantes da Ditadura Militar brasileira (1964-1985) tentavam se apropriar do imaginário popular sobre a independência do povo brasileiro.                                     Cartaz do filme Independência ou Morte! Direção: Carlos Coimbra, 1972. Disponível em:  <http://pt.wikipedia.org/wiki/Independ%C3%AAncia_ou_Morte>. Acesso em 31 jul. 2012.  O poder da pintura de Pedro Américo ligado à identidade nacional também está presente nas histórias em quadrinhos contemporâneas, como em “A Independência do Brasil”, produzidas por André Diniz e Antônio Eder em 2008. Esses quadrinhos revelam como a interpretação hegemônica sobre a libertação do Brasil em relação a Portugal é determinante nos modos de pensar histórico brasileiro. A reprodução infinita e onipresente na mídia e na escola (via livros didáticos, filmes, quadrinhos e internet) da imagem canônica criada no século XIX é a prova da força dessa concepção.   DINIZ, André; EDER, Antônio. A Independência do Brasil.  São Paulo: Escala Editorial, 2008, p. 44.  Em uma pesquisa publicada recentemente (FRONZA, 2012) dentre os 125 jovens estudantes do 2º ano do Ensino Médio de Curitiba-PR, São João dos Patos – MA, Três Lagoas – MS e Vitória da Conquista – BA, mais de 90% deles apresentaram, em 2011, essa concepção que afirma a tradição nacional em relação à Independência do Brasil, tal como se percebe na representação de Beatriz, de São João dos Patos, do Maranhão:       Beatriz – 16 anos – São João dos Patos  	Beatriz representou uma história em quadrinhos que expressa uma consciência histórica tradicional. A imagem canônica de D. Pedro sobre o cavalo, gritando “Independência ou morte!” marca, como na maioria dos quadrinhos representados pelos jovens investigados, uma adesão à interpretação tradicional dessa situação do passado. A sua narrativa gráfica é coerente. Exceto Bonifácio e Leopoldina, que estão representados numa tarja que contém o texto do narrador, Beatriz desenhou todos os personagens e situações do passado indicadas pela tradição nacional. A participação do mensageiro é destacada por uma tarja no quadrinho em que este personagem aparece. Outro vestígio da adesão de Beatriz a uma narrativa esquemática, vinculada à tradição, está na tarja do último quadro que representa D. Pedro declarando a Independência: a indicação do rio Ipiranga e da data de 7 de setembro de 1822.  No entanto, é possível que sejam compreendidas as possibilidades alternativas em relação a uma verdade aparentemente tão inquestionável? A resposta é sim e essas possibilidades já existem tanto na mídia quanto na historiografia que muitos professores buscam se basear para narrar a independência. Um exemplo conhecido de uma imagem alternativa da Independência do Brasil entre os professores de História é a história em quadrinhos “Da Colônia ao Império: um Brasil pra inglês ver...”, de Miguel Paiva e Lilia Moritz Schwarcz, publicada em 1998 (primeira edição de 1982):    PAIVA, Miguel; SCHWARCZ, Lilia Moritz. Da Colônia ao Império: um Brasil para inglês ver e latifundiário nenhum botar defeito. 10ª ed. São Paulo: Brasiliense, 1995, p. 7.     PAIVA, Miguel; SCHWARCZ, Lilia Moritz. Da Colônia ao Império: um Brasil para inglês ver e latifundiário nenhum botar defeito. 10ª ed. São Paulo: Brasiliense, 1995, p. 8.   PAIVA, Miguel; SCHWARCZ, Lilia Moritz. Da Colônia ao Império: um Brasil para inglês ver e latifundiário nenhum botar defeito. 10ª ed. São Paulo: Brasiliense, 1995, p. 9.  O roteiro proposto pela historiadora Lilia Moritz Schwarcz apresenta interpretações que destoam das visões tradicionais da História. Isto porque problematiza a imagem referente ao Grito da Independência. Também, no último quadro, apresenta as consequências sociais da declaração de Independência do Brasil por D. Pedro I.  Reproduz-se três quadros desta versão aqui, pois se têm consciência do teor polêmico que eles causaram entre os jovens. Nestes quadrinhos, um pintor provavelmente Pedro Américo, que viveu muitos anos depois da independência, aparece a D. Pedro para “corrigi-lo”, a partir da pintura clássica de 1888, em relação ao fato de ele realizar a Independência de uma forma realista, em cima de um burro e com roupas de viagem; inclusive, no último quadro, aparecem críticas advindas da população brasileira (representados pelos personagens do camponês e do negro). Essas imagens alternativas estilhaçam o imaginário tradicional sobre a Independência. Mas essas imagens alternativas têm fundamento na historiografia sobre o processo de Independência do Brasil? Novamente a resposta é sim. E isso por vários fatores. O primeiro diz respeito à participação de D. Leopoldina e José Bonifácio nesse processo histórico. Hoje se sabe do papel de grande relevância da futura imperatriz do Brasil no processo de independência. Inclusive, a historiografia mais recente aponta que foi ela e Bonifácio que determinaram diretamente a separação do Brasil em relação a Portugal.  Além disso, existia um movimento liberal radical, em 1822, que pregava a instituição imediata de uma república independente antiescravista no Brasil. Esse movimento era liderado pelo republicano Gonçalves Ledo. Hoje se sabe que em alguns momentos D. Pedro I se aliou a ele para ter apoio para a independência (PAIVA; SCHWARCZ, 1995, p. 63). 	Ao contrário da concepção tradicional, a Independência do Brasil não foi um processo pacífico, pois houve guerras de independência, inclusive com uso de mercenários franceses apoiando o governo central de D. Pedro I. O Grão-Pará (hoje Pará e Amazonas) por muito pouco não faria parte do Brasil, assim como a Bahia, pois apoiavam e juravam obediência às cortes portuguesas e a continuação da colonização do Brasil por Portugal. Isso porque, o Grão-Pará foi colonizado de uma forma diferente em relação restante do Brasil. 	Afora isso, em 1823, o Império do Brasil enfrentou duas revoltas de independência separatistas. Na Guerra Cisplatina, o Brasil foi derrotado, pois o Uruguai se tornou independente sob os auspícios da Inglaterra (a Colônia de Sacramento na Província Cisplatina, no hoje Uruguai, pertencia, até esse ano, ao Império do Brasil). No mesmo ano, a Confederação do Equador liderada por Pernambuco sob o comando de Frei Caneca lutou por uma república liberal democrática antiescravista independente do Brasil. O governo central do Rio de Janeiro conseguiu derrotar esta revolta. 	Houve, portanto, no processo de Independência do Brasil, uma união do império brasileiro pela Coroa portuguesa com o Rio de Janeiro compreendido como centro de um estado unitário mantido por um regime econômico escravista. Estado este, organizado em uma monarquia absolutista demarcada pela instituição do Padroado (onde o imperador exercia poder de intervenção nos poderes legislativo e judiciário e na própria Igreja) e pela prática de um parlamentarismo às avessas (onde o parlamento acatava as decisões imperiais). 	O tema da escravidão foi, possivelmente, o tema que mais influenciou na instituição de uma monarquia absolutista escravista (com um verniz parlamentar) no Brasil depois de 1822, pois, como a experiência da independência do Haiti e dos Estados Unidos (incluindo a futura guerra civil norte-americana), mostraram que a escravidão era incompatível com uma república democrática. Tanto isso era considerado verdade que somente três províncias apoiaram D. Pedro I na independência em 1822: São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais. Não por acaso essas regiões estavam entre as províncias com mais escravos. Inclusive traficantes brasileiros de escravos africanos organizaram um movimento de adesão da Angola (Benguela) ao Império do Brasil em 1822. Por pouco o Brasil não teve uma província na África para que continuasse a suprir sua economia em ascensão com africanos escravizados (ALENCASTRO, 2000, p. 324-325). 	Consciente desse processo, uma jovem de Curitiba representou uma imagem alternativa. Eis a imagem representada por Marjane, de Curitiba:      Marjane – 16 anos – Curitiba   	Marjane compôs uma história em quadrinhos que apresenta um diálogo entre a narrativa tradicional sobre a Independência do Brasil e uma nova narrativa aberta para o futuro. A narrativa tradicional, fundadora da identidade nacional, é incorporada sob uma nova interpretação, vinculada à liberdade e dignidade humanas como um princípio universal que, antes, estava vedada aos brasileiros. A narrativa dessa jovem põe em dúvida as precisões dos marcos espaciais, e dos acontecimentos que levaram à Independência. Nas três primeiras tarjas expressa essas dúvidas quanto à realidade das experiências ligadas à localização do evento no rio Ipiranga, e da existência da carta recebida por D. Pedro I neste local. O caráter evanescente das imagens alternativas é flagrante, pois em um balão do segundo quadrinho a palavra Independência aparece só parcialmente como que desaparecendo da imagem. A narrativa afirma, na quarta tarja, que D. Pedro I realmente existiu e evitou que uma guerra civil acontecesse. A ideia de guerra esta representada pela expressão “o pior acontecesse” e pela imagem alternativa de duas espadas se digladiando. Aparentemente, a narrativa, a partir desse ponto, toma um rumo de afirmação da imagem da bandeira imperial e da clássica frase “Independência ou morte”; mas o valor que mobiliza esses quadros, à primeira vista tradicionais, é a liberdade, que no início está vinculada às ações e intenções de D. Pedro I. Mas no último quadrinho, mesmo com a referência temporal à data de 7 de setembro, a liberdade sai da referência a este personagem histórico e passa a ser compartilhada por todos os brasileiros com a frase “começamos a lutar por nós mesmos”.  	O diálogo entre imagens canônicas e imagens alternativas parece revelar que D. Pedro era uma espécie de estopim para algo que este personagem nem imaginava: a busca da liberdade do povo brasileiro, no qual Marjane se define como integrante, pois sempre usa a primeira pessoa do plural e o pronome possessivo “nosso”. É perceptível que, para evitar o poder dos ícones canônicos, essa jovem não representou o personagem D. Pedro, mas somente a sua fala, como se fosse uma senha para uma mudança histórica estrutural que sequer tinha imaginado: o processo histórico que culminou, no futuro do passado, com a liberdade de todo o povo brasileiro que a toma em suas mãos. Possivelmente, esse é o significado da invisibilidade desse personagem nos quadrinhos. Essas imagens alternativas incorporam um passado trágico em prol de uma expectativa de futuro pautada na esperança de liberdade de todos os brasileiros em relação a qualquer forma de opressão.  Referências:  ALENCASTRO, Luiz Felipe de. O trato dos viventes: formação do Brasil no Atlântico Sul. São Paulo: Companhia das Letras,2000,  p. 324-325. DINIZ, André; EDER, Antonio. A Independência do Brasil. São Paulo: Escala Editorial, 2008, p. 41-45. FRONZA, Marcelo. A intersubjetividade e a verdade na aprendizagem histórica de jovens estudantes a partir das histórias em quadrinhos. Curitiba: PPGE -UFPR, 2012, (Tese de Doutorado). OAKESHOTT, Michel. Sobre a História e outros ensaios. Rio de Janeiro: Topbooks Editora, 2003. PAIVA, Miguel; SCHWARCZ, Lilia Moritz. Da Colônia ao Império: um Brasil para inglês ver e latifundiário nenhum botar defeito. 10ª ed. São Paulo: Brasiliense, 1995, p. 5-9. RÜSEN, Jörn. A razão histórica: Teoria da história: os fundamentos da ciência histórica. Brasília: UnB, 2001. SALIBA, Elias Tomé. As imagens canônicas e o Ensino de História. In: SCHMIDT, Maria auxiliadora; CAINELLI, Marlene Rosa. III Encontro Perspectivas do Ensino de História. Curitiba: Aos Quatro Ventos, 1999.  Referências Online: Cartaz do filme Independência ou Morte! Direção: Carlos Coimbra, 1972. Disponível em:  <http://pt.wikipedia.org/wiki/Independ%C3%AAncia_ou_Morte>. Acesso em 31 jul. 2012. Cena do filme de 1972 estrelado por Tarcísio Meira em que D. Pedro proclama a Independência do Brasil às margens do rio Ipiranga, em São Paulo, e depois é coroado primeiro imperador do país. Disponvel em <http://www.youtube.com/watch?v=mheime48ibA&feature=related>. Acesso em 28 dez. 2011. FRANCO, Paula de Almeida. Independência ou Morte, de Pedro Américo. Disponível em: http://historiandonanet07.wordpress.com/2011/01/16/%E2%80%9Cindependencia-ou-morte%E2%80%9D-de-pedro-americo/. Acesso em 23 dez. 2011.

O poder da pintura de Pedro Américo ligado à identidade nacional também está presente nas histórias em quadrinhos contemporâneas, como em “A Independência do Brasil”, produzidas por André Diniz e Antônio Eder em 2008. Esses quadrinhos revelam como a interpretação hegemônica sobre a libertação do Brasil em relação a Portugal é determinante nos modos de pensar histórico brasileiro. A reprodução infinita e onipresente na mídia e na escola (via livros didáticos, filmes, quadrinhos e internet) da imagem canônica criada no século XIX é a prova da força dessa concepção.


DINIZ, André; EDER, Antônio. A Independência do Brasil. São Paulo: Escala Editorial, 2008, p. 44.

Em uma pesquisa publicada recentemente (FRONZA, 2012) dentre os 125 jovens estudantes do 2º ano do Ensino Médio de Curitiba-PR, São João dos Patos – MA, Três Lagoas – MS e Vitória da Conquista – BA, mais de 90% deles apresentaram, em 2011, essa concepção que afirma a tradição nacional em relação à Independência do Brasil, tal como se percebe na representação de Beatriz, de São João dos Patos, do Maranhão:



Beatriz representou uma história em quadrinhos que expressa uma consciência histórica tradicional. A imagem canônica de D. Pedro sobre o cavalo, gritando “Independência ou morte!” marca, como na maioria dos quadrinhos representados pelos jovens investigados, uma adesão à interpretação tradicional dessa situação do passado. A sua narrativa gráfica é coerente. Exceto Bonifácio e Leopoldina, que estão representados numa tarja que contém o texto do narrador, Beatriz desenhou todos os personagens e situações do passado indicadas pela tradição nacional. A participação do mensageiro é destacada por uma tarja no quadrinho em que este personagem aparece. Outro vestígio da adesão de Beatriz a uma narrativa esquemática, vinculada à tradição, está na tarja do último quadro que representa D. Pedro declarando a Independência: a indicação do rio Ipiranga e da data de 7 de setembro de 1822.
No entanto, é possível que sejam compreendidas as possibilidades alternativas em relação a uma verdade aparentemente tão inquestionável?
A resposta é sim e essas possibilidades já existem tanto na mídia quanto na historiografia que muitos professores buscam se basear para narrar a independência.
 Beatriz – 16 anos – São João dos Patos



Um exemplo conhecido de uma imagem alternativa da Independência do Brasil entre os professores de História é a história em quadrinhos “Da Colônia ao Império: um Brasil pra inglês ver...”, de Miguel Paiva e Lilia Moritz Schwarcz, publicada em 1998 (primeira edição de 1982):

PAIVA, Miguel; SCHWARCZ, Lilia Moritz. Da Colônia ao Império: um Brasil para inglês ver e latifundiário nenhum botar defeito. 10ª ed. São Paulo: Brasiliense, 1995, p. 7.

PAIVA, Miguel; SCHWARCZ, Lilia Moritz. Da Colônia ao Império: um Brasil para inglês ver e latifundiário nenhum botar defeito. 10ª ed. São Paulo: Brasiliense, 1995, p. 9.

PAIVA, Miguel; SCHWARCZ, Lilia Moritz. Da Colônia ao Império: um Brasil para inglês ver e latifundiário nenhum botar defeito. 10ª ed. São Paulo: Brasiliense, 1995, p. 8.


O roteiro proposto pela historiadora Lilia Moritz Schwarcz apresenta interpretações que destoam das visões tradicionais da História. Isto porque problematiza a imagem referente ao Grito da Independência. Também, no último quadro, apresenta as consequências sociais da declaração de Independência do Brasil por D. Pedro I.

PAIVA, Miguel; SCHWARCZ, Lilia Moritz. Da Colônia ao Império: um Brasil para inglês ver e latifundiário nenhum botar defeito. 10ª ed. São Paulo: Brasiliense, 1995, p. 9.


Reproduz-se três quadros desta versão aqui, pois se têm consciência do teor polêmico que eles causaram entre os jovens. Nestes quadrinhos, um pintor provavelmente Pedro Américo, que viveu muitos anos depois da independência, aparece a D. Pedro para “corrigi-lo”, a partir da pintura clássica de 1888, em relação ao fato de ele realizar a Independência de uma forma realista, em cima de um burro e com roupas de viagem; inclusive, no último quadro, aparecem críticas advindas da população brasileira (representados pelos personagens do camponês e do negro). Essas imagens alternativas estilhaçam o imaginário tradicional sobre a Independência.
Mas essas imagens alternativas têm fundamento na historiografia sobre o processo de Independência do Brasil?
Novamente a resposta é sim. E isso por vários fatores.

O primeiro diz respeito à participação de D. Leopoldina e José Bonifácio nesse processo histórico. Hoje se sabe do papel de grande relevância da futura imperatriz do Brasil no processo de independência. Inclusive, a historiografia mais recente aponta que foi ela e Bonifácio que determinaram diretamente a separação do Brasil em relação a Portugal.
Além disso, existia um movimento liberal radical, em 1822, que pregava a instituição imediata de uma república independente antiescravista no Brasil. Esse movimento era liderado pelo republicano Gonçalves Ledo. Hoje se sabe que em alguns momentos D. Pedro I se aliou a ele para ter apoio para a independência (PAIVA; SCHWARCZ, 1995, p. 63).


Ao contrário da concepção tradicional, a Independência do Brasil não foi um processo pacífico, pois houve guerras de independência, inclusive com uso de mercenários franceses apoiando o governo central de D. Pedro I. O Grão-Pará (hoje Pará e Amazonas) por muito pouco não faria parte do Brasil, assim como a Bahia, pois apoiavam e juravam obediência às cortes portuguesas e a continuação da colonização do Brasil por Portugal. Isso porque, o Grão-Pará foi colonizado de uma forma diferente em relação restante do Brasil.
Afora isso, em 1823, o Império do Brasil enfrentou duas revoltas de independência separatistas. Na Guerra Cisplatina, o Brasil foi derrotado, pois o Uruguai se tornou independente sob os auspícios da Inglaterra (a Colônia de Sacramento na Província Cisplatina, no hoje Uruguai, pertencia, até esse ano, ao Império do Brasil). No mesmo ano, a Confederação do Equador liderada por Pernambuco sob o comando de Frei Caneca lutou por uma república liberal democrática antiescravista independente do Brasil. O governo central do Rio de Janeiro conseguiu derrotar esta revolta.
Houve, portanto, no processo de Independência do Brasil, uma união do império brasileiro pela Coroa portuguesa com o Rio de Janeiro compreendido como centro de um estado unitário mantido por um regime econômico escravista. Estado este, organizado em uma monarquia absolutista demarcada pela instituição do Padroado (onde o imperador exercia poder de intervenção nos poderes legislativo e judiciário e na própria Igreja) e pela prática de um parlamentarismo às avessas (onde o parlamento acatava as decisões imperiais).
O tema da escravidão foi, possivelmente, o tema que mais influenciou na instituição de uma monarquia absolutista escravista (com um verniz parlamentar) no Brasil depois de 1822, pois, como a experiência da independência do Haiti e dos Estados Unidos (incluindo a futura guerra civil norte-americana), mostraram que a escravidão era incompatível com uma república democrática. Tanto isso era considerado verdade que somente três províncias apoiaram D. Pedro I na independência em 1822: São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais. Não por acaso essas regiões estavam entre as províncias com mais escravos. Inclusive traficantes brasileiros de escravos africanos organizaram um movimento de adesão da Angola (Benguela) ao Império do Brasil em 1822. Por pouco o Brasil não teve uma província na África para que continuasse a suprir sua economia em ascensão com africanos escravizados (ALENCASTRO, 2000, p. 324-325).
Consciente desse processo, uma jovem de Curitiba representou uma imagem alternativa. Eis a imagem representada por Marjane, de Curitiba:
Marjane – 16 anos – Curitiba

Marjane – 16 anos – Curitiba

Marjane compôs uma história em quadrinhos que apresenta um diálogo entre a narrativa tradicional sobre a Independência do Brasil e uma nova narrativa aberta para o futuro. A narrativa tradicional, fundadora da identidade nacional, é incorporada sob uma nova interpretação, vinculada à liberdade e dignidade humanas como um princípio universal que, antes, estava vedada aos brasileiros. A narrativa dessa jovem põe em dúvida as precisões dos marcos espaciais, e dos acontecimentos que levaram à Independência. Nas três primeiras tarjas expressa essas dúvidas quanto à realidade das experiências ligadas à localização do evento no rio Ipiranga, e da existência da carta recebida por D. Pedro I neste local. O caráter evanescente das imagens alternativas é flagrante, pois em um balão do segundo quadrinho a palavra Independência aparece só parcialmente como que desaparecendo da imagem. A narrativa afirma, na quarta tarja, que D. Pedro I realmente existiu e evitou que uma guerra civil acontecesse. A ideia de guerra esta representada pela expressão “o pior acontecesse” e pela imagem alternativa de duas espadas se digladiando. Aparentemente, a narrativa, a partir desse ponto, toma um rumo de afirmação da imagem da bandeira imperial e da clássica frase “Independência ou morte”; mas o valor que mobiliza esses quadros, à primeira vista tradicionais, é a liberdade, que no início está vinculada às ações e intenções de D. Pedro I. Mas no último quadrinho, mesmo com a referência temporal à data de 7 de setembro, a liberdade sai da referência a este personagem histórico e passa a ser compartilhada por todos os brasileiros com a frase “começamos a lutar por nós mesmos”.

O diálogo entre imagens canônicas e imagens alternativas parece revelar que D. Pedro era uma espécie de estopim para algo que este personagem nem imaginava: a busca da liberdade do povo brasileiro, no qual Marjane se define como integrante, pois sempre usa a primeira pessoa do plural e o pronome possessivo “nosso”. É perceptível que, para evitar o poder dos ícones canônicos, essa jovem não representou o personagem D. Pedro, mas somente a sua fala, como se fosse uma senha para uma mudança histórica estrutural que sequer tinha imaginado: o processo histórico que culminou, no futuro do passado, com a liberdade de todo o povo brasileiro que a toma em suas mãos. Possivelmente, esse é o significado da invisibilidade desse personagem nos quadrinhos. Essas imagens alternativas incorporam um passado trágico em prol de uma expectativa de futuro pautada na esperança de liberdade de todos os brasileiros em relação a qualquer forma de opressão.



Referências:
ALENCASTRO, Luiz Felipe de. O trato dos viventes: formação do Brasil no Atlântico Sul. São Paulo: Companhia das Letras,2000, p. 324-325.
DINIZ, André; EDER, Antonio. A Independência do Brasil. São Paulo: Escala Editorial, 2008, p. 41-45.
FRONZA, Marcelo. A intersubjetividade e a verdade na aprendizagem histórica de jovens estudantes a partir das histórias em quadrinhos. Curitiba: PPGE -UFPR, 2012, (Tese de Doutorado).
OAKESHOTT, Michel. Sobre a História e outros ensaios. Rio de Janeiro: Topbooks Editora, 2003.
PAIVA, Miguel; SCHWARCZ, Lilia Moritz. Da Colônia ao Império: um Brasil para inglês ver e latifundiário nenhum botar defeito. 10ª ed. São Paulo: Brasiliense, 1995, p. 5-9.
RÜSEN, Jörn. A razão histórica: Teoria da história: os fundamentos da ciência histórica. Brasília: UnB, 2001.
SALIBA, Elias Tomé. As imagens canônicas e o Ensino de História. In: SCHMIDT, Maria auxiliadora; CAINELLI, Marlene Rosa. III Encontro Perspectivas do Ensino de História. Curitiba: Aos Quatro Ventos, 1999.

Referências Online:

Cartaz do filme Independência ou Morte! Direção: Carlos Coimbra, 1972. Disponível em:
<http://pt.wikipedia.org/wiki/Independ%C3%AAncia_ou_Morte>. Acesso em 31 jul. 2012.
Cena do filme de 1972 estrelado por Tarcísio Meira em que D. Pedro proclama a Independência do Brasil às margens do rio Ipiranga, em São Paulo, e depois é coroado primeiro imperador do país. Disponvel em <http://www.youtube.com/watch?v=mheime48ibA&feature=related>. Acesso em 28 dez. 2011.
FRANCO, Paula de Almeida. Independência ou Morte, de Pedro Américo. Disponível em: http://historiandonanet07.wordpress.com/2011/01/16/%E2%80%9Cindependencia-ou-morte%E2%80%9D-de-pedro-americo/. Acesso em 23 dez. 2011.
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